Cuiabá (MT), 25 de setembro de 2017 - 10:58

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Cultura

30/08/2017 09:39

Na Casa Cuiabana, Carlos Amorim lançará “Entre dias e noites”, sua primeira obra poética

Durante a segunda semana de setembro, o poeta cuiabano, radicado no município de Santo Antônio de Leverger, lançará o seu primeiro livro de poesia, intitulado: “Entre Dias e Noites”. Embora residente de Santo Antônio de Leverger, Moisés Carlos Amorim tem uma relação estreita e íntima com a cidade de Cuiabá, de modo que ele mesmo se perde quando questionado sobre sua naturalidade; numa entrevista, assim ele se expressa: “Sou um passageiro constante tanto do interior quanto da capital, por isso me sinto enraizado nas duas realidades”. 
 
Acontecimento em Santo Antônio
 
Em uma noite de verão
os raios do luar incendiaram a superfície
do rio
(com extrema luminosidade)
enquanto a cidade e os seus habitantes
calmamente adormeciam
às 22:00 horas
 
Em Cuiabá, na UFMT, Carlos Amorim fez seus estudos acadêmicos, licenciando-se em Letras, com habilitação em Literaturas de línguas portuguesas e, posteriormente, na mesma instituição, mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea - ECCO.
 
O pré-lançamento da obra “Entre dias e noites” será no dia 09, na Casa Cuiabana, das 10h às 18h. A entrada no evento é gratuita e haverá várias outras ações culturais tais como: apresentação de música autoral-alternativa, recitação de poesias, exposição de fotografias, desenhos e pinturas etc.
 
Mas (retomando o trabalho de apresentar a sua obra), pode-se afirmar que os poemas são de múltiplos assuntos da vida, evidenciado com criticidade aspectos relacionados à formação de si, de sua terra e da pátria - nacional e humana, no tocante às reverberações de questões atuais. Nesse sentido, cito os poemas: “Uma pátria”, “Ode às casas populares” e “O prisioneiro”. 
 
Ode às Casas Populares
 
Em minha terra
não foi construído nenhum
arranha-céu
para que não atrapalhe o voo
dos pássaros
- tráfego aéreo com fluxo
permanente.
Ao povo esquecido
da minha terra, os maiores
pedreiros edificaram casas,
que são obras
singulares e costumeiras
do cotidiano
...
 
Noutros poemas, Amorim revela sensibilidade, irmandade e lirismo ao expressar o pertencimento à terra que o constitui, mostrando de forma inequívoca que a constituição de um ser se origina de várias fontes, que marcam, de tal modo, simples e inevitável, que o que somos, só somos porque outros nos constituem. Dito de outro modo, somos o que somos porque pessoas, essência is e imprescindíveis, deixaram um pouco de si em nós, como exemplo temos os poemas “Rotina de Trabalho”, “Adorável poeta, Sr. Palhares”, “Sabedoria”. O poeta não  é outro senão aquele que dialoga com as dores:  do mundo e as suas,  abstraindo delas a estética, construindo arte capaz de emocionar, refletir e mudar o que somos. E isso tem como fim último não nos esquecermos do humanismo.
 
Canção do Vento
 
Um dia, serei a brisa que passa...
E o meu destino – correr para longe
percorrendo campos em flor...
Ah! ser elemento da natureza
irmão das águas e das pedras...
Ao luar, as árvores cobrirão meu
corpo aéreo com as folhagens
ainda verdes. E dançaremos ao
amanhecer, enquanto na terra
descansam os seres grandes ou
pequenos... Então, oh! chuva,
no dia claro ou em hora sombria,
levarei minha dádiva como um
segredo – o ar puro da primavera.
 
Em poemas como “Do homem anônimo para a mulher anônima”, “Interlúdio do Fogo” entre outros, vemos o amor como um símbolo que se relaciona às variadas faces do sentimento. No primeiro poema, o amor é incompreensível, no entanto, isso não se traduz na ausência de sentido ao ser que ama, visto que o sentimento se alicerça no subjetivismo do amador; no segundo, evidencia a realidade desse sentimento relacionado ao ato concreto.
 
Ao exteriorizar sua visão sobre a importância da poesia, o poeta assim se manifesta: "A poesia é um alimento espiritual... A água e o pão que há nela saciam a fome e a sede da humanidade inteira, porque toda a humanidade, independentemente de classe ou valor social, é miserável". Essa visão um tanto pessimista é apenas um dos fundamentos de sua poesia, do seu fazer poético e assim percebemos quando ele, otimista, sobre o poder da poesia, revela: “Sem dúvida, aquela Magia fará descendentes, como fonte incorruptível deixado para a humanidade. E nada, nenhuma pedra, será como antes”.
 
Elegia para Lêdo Ivo
 
Foi a Espanha que o viu pela última
vez, entre a gigantesca profusão dos pássaros.
E a bruma, embora densa, não pôde sufocar
as palavras, que o acompanharam durante a
vida e desabrocharam para além do túmulo.
Desde o princípio, a bandeira tremulante da
vertigem calcinou nos seus versos uma linguagem
verdadeira. Fruto imperecível... Contudo, os dias
chegarão pelo quadrante do tempo com prevista
naturalidade, de modo que fique numa data
o falecimento do poeta, ocorrido em Sevilha.
E os telejornais retomem o cotidiano, suspenso
pela triste reportagem. Sem dúvida, aquela Magia
fará descendentes, como fonte incorruptível
deixado para a humanidade. E nada, nenhuma
pedra, será como antes.
 
 
Por Carlos Lisboa
Da Mídia Crítica Descentrada

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