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28/08/2017 11:26

Ecos do passado norte-americano

Daniel Almeida de Macedo

É perturbador notar a atitude ambígua do presidente norte-americano diante das recentes manifestações populares de racismo nos Estados Unidos. Quando todos pareciam já se acostumar com a truculência delirante de Donald Trump, surge o episódio de Charlottesville que elevou o nível de assombro em relação ao primeiro mandatário norte-americano. A amarga impressão que fica de seu posicionamento indefinido, que não condenou de forma clara a marcha de pessoas que entoavam palavras de ódio e segregação pelas ruas, revela a verdadeira face do presidente norte americano.

No Brasil é proibido fazer qualquer distinção baseada em raça ou cor, ou ainda segundo a nacionalidade, o credo ou a preferência sexual das pessoas. Entre nós isso é considerado discriminação e enseja punições. O racismo existe no Brasil, mas é dissimulado e se manifesta em atitudes e gestos variados, o que não é menos grave do que fazer declarações explícitas de discriminação. Mas realmente causa estranhamento a tradição constitucional norte-americana de aceitar atos públicos de ódio contra latinos, negros, gays e judeus, legitimados à luz do direito à liberdade de expressão. Os direitos devem ser exercidos de forma plena, mas não são liberdades incontrastáveis. Até mesmo o sagrado direito de expressão deve respeitar limitações, afinal a paz e a igualdade, que são os objetivos maiores de todas as nações democráticas, não podem ser construídas em meio a uma sociedade dividida.

Pois segregação e preconceito foi justamente o que se viu recentemente em Charlottesville, uma simpática cidade localizada no Estado americano de Virgínia. A cidade que no passado foi moradia do ex-presidente Thomas Jefferson (1743-1826), um dos chamados fundadores da nação e homem moldado pelos conceitos de igualdade do Iluminismo, foi palco de uma passeata inspirada por ideias e sentimentos racistas, xenófobos e antifeministas. Uma mistura de alguns dos mais rasteiros traços da psiquê humana, proclamados por organizações supremacistas como a lendária Ku Klux Klan, mas também por associações mais modernas, como o grupo de ódio Alt-Right. Um verdadeiro desfile de horrores. Algo tão claramente condenável, isto é, uma manifestação pública tão inaceitável pela carga de hostilidade, asco e raiva que trazia, que a sua reprovação por parte da presidência dos Estados Unidos deveria ter sido instantânea e automática. Mas não foi essa a reação da Casa Branca. Trump afirmou que via "culpa nos dois lados" e que "havia pessoas boas" entre os extremistas de direita.

Embora os eventos de Charlottesville possam parecer pontuais diante do conjunto maior de fatos e acontecimentos internos dos Estados Unidos, a reação frouxa do governo norte americano nesse caso assinala um momento de grande significância na trajetória presidencial de Trump. Ao não ter falado o que deveria em relação aos atos de racismo na Virgínia, Trump não apresentou a postura esperada para o cargo, e isso fez com que se distanciasse ainda mais do paradigma mentalmente construído para a função de presidente dos Estado Unidos da América. No imaginário coletivo do povo americano o Chefe de Estado e de Governo tem justamente o dever patriótico de unir a federação e seus elementos dissonantes. Essa é uma das mais importantes missões presidenciais. Como tem atuado constantemente em favor da desagregação, aos poucos Trump vai "deixando" de ser, pelo menos no campo imaginário, o Presidente dos Estados Unidos. Ao não reagir contrariamente aos protestos racistas de Charlottesville, está cada vez mais evidente que a defesa da igualdade e das liberdades - princípios valiosos para maioria dos americanos e para o mundo ocidental - não são compartilhados pelo presidente norte americano.

Esse cenário generalizado de ódio e discriminação que se expande pouco a pouco, faz ecoar do passado as reminiscências de um conflito que em 1861 dividiu os Estados Unidos entre estados escravagistas e abolicionistas, culminando em uma sangrenta guerra civil. É improvável que na atualidade os acontecimentos evoluam para um cenário tão drástico, mas a rigor, os Estados Unidos já são uma nação dividida e com grandes dificuldades de convivência interna.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP


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