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Artigos

04/07/2017 15:07

O caso do promotor de Guarantã

Embora num primeiro momento sejamos natural e instintivamente levados a repugnar os atos extravagantes praticados pelo senhor Fábio Camilo da Silva, promotor de Justiça lotado em Guarantã do Norte (MT), tendo em vista que ninguém pode ser conivente com abuso de autoridade, agressão e danos, sinto que o caso carece de alguns esclarecimentos.
 
Há que se ter uma investigação mais e melhor aprofundada, com laudo médico, não só para a confirmação do nível de embriaguez por parte dele, bem como do uso ou não de outras substâncias psicoativas - capazes de causar fortes alterações nas funções básicas da mente - e, outrossim, dalgum transtorno, síndrome ou distúrbio psiquiátrico, que eventualmente pode ter deflagrado até mesmo um surto psicótico, como sói ocorrer, por exemplo, em sujeitos acometidos por bipolaridade - principalmente no estágio maníaco -, que é uma doença, pouco ou nada consentânea com o consumo de álcool e outras substâncias análogas, invariavelmente revelando-se ser uma mistura explosiva e perigosa. 
 
Existem outras possibilidades, como a reação orgânica causada quando do consumo de álcool com algum psicotrópico, lícito ou ilícito, mesmo que a pessoa não tenha um diagnóstico psiquiátrico crônico ou agudo.
 
Enfim, por detrás da autoridade, existe um ser humano, falível e não imune às vulnerabilidades diversamente manifestadas em cada indivíduo, como ao status de adicto ou transtorno de personalidade, para além das hipóteses ventiladas acima, não obstante a tantas outras. 
 
Às vezes, na maioria das vezes, essas pessoas, seja quem for, independente do cargo ou outra distinção de cor, credo ou raça, precisam mais de ajuda e tratamento, do que de julgamento e encarceramento. Muitos presos Brasil afora deveriam estar em clínicas de reabilitação, não em celas superlotadas.
 
Estaria o aludido personagem do lamentável episódio no pleno gozo das suas faculdades mentais, dentre elas a de percepção e julgamento, de compreensão e bom-senso? 
 
Olhe, não estou aqui defendendo a conduta do referido promotor, e, sim, a partir do reconhecimento da condição humana e da subjetividade da vida dele, até então desconhecidas por todos nós, tento acessar elementos e circunstâncias que possam ajudar na compreensão do que o levou a agir da maneira que agiu, colocando sua carreira na berlinda e comprometendo sua vida pessoal. 
 
Afinal de contas, as coisas não serão fáceis para ele, depois desses episódios. A ressaca e a dor de cabeça serão avassaladoras, até pela exposição ocorrida das atitudes reprováveis e descabidas, indubitavelmente cometidas pelo promotor.
 
Concordo que ele tem de ser imediatamente afastado da função e responder aos procedimentos previstos, em cada esfera cabível e, ao final, receber a sanção que for devida, mediante o que for apurado e confirmado.
 
Porém, a despeito dos erros cometidos, ante a estranheza de tudo o que se sucedeu, parece-me mais oportuno e conveniente esperar a elucidação dos fatos, sobretudo a respeito da situação psicológica em que se encontrava, para entender o que motivou os acontecimentos exóticos, amplamente repercutidos, antes de proferir um veredito final.
 
Todos têm direito ao contraditório e à ampla defesa, assim como ao devido processo legal, por pior que sejam as acusações que recaiam sobre qualquer um de nós. Quem nunca cometeu faltas e falhas? 
 
A execração pública e o justiçamento popular são os melhores remédios e tratamentos para os males da vida? Tenho notícias de que Fábio foi sedado e está hospitalizado. Parece que seus familiares estão a caminho.
 
O maior prejudicado com tudo isso será ele próprio. Pode, inclusive, perder o cargo e responder por vários delitos, supostamente praticados em ato contínuo, contra os policiais militares - que, segundo consta, agiram de forma admiravelmente equilibrada e altamente profissional -, assim como em face de patrimônio privado, ao quebrar a porta duma TV da cidade, e da integridade física de toda a coletividade, ao dirigir aparentemente sobre efeito de substâncias indevidas.
 
Mas, o "x" da questão é: "o que leva alguém a jogar para o alto uma carreira promissora e ter de enfrentar todo o revés que se voltou contra ele a partir das suas próprias atitudes? Seria a mera banalidade do mal? Pode haver, de dentro para fora, algo a mais, guardado nos lugares mais recônditos da pessoa humana? Ou, de fora para dentro, algum caso fortuito ou de força maior?
 
Existem segredos dentro de nós que sequer conhecemos. Desvendar a natureza e a subjetividade humana é quase como descobrir e mapear uma galáxia, senão o Universo inteiro. 
 
Por fim, como fiz questão de registrar no texto, nem de longe ou de perto defendo o comportamento denunciado do promotor de Guarantã do Norte. Porém, ao revés de simplesmente julgar, penso que é importante tentar compreender.  
 
PAULO LEMOS é advogado em Mato Grosso e acadêmico de Psicologia na Uniflor.
 

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